terça-feira, 31 de agosto de 2010

Anjo São Lucas


Conheci o anjo Lucas na apresentação da peça “Filhos do Kaos”, de Fábio Viana. Ali, em pleno palco, entre uma multidão de atores e atrizes, o anjo cantava, dançava, pulava, se apresentava. Em destaque, porém, pois ele se sobressaía dos demais pela altura, desenvoltura, beleza e leveza, pelo tom mavioso da voz, pela estética e pela aura que lhe acompanhava.

Fiquei encantado pela música que falava de São Jorge, outro santo, ou Ogum, uma divindade do reino africano. Na verdade, a música poderia estar falando dos dois santos, pois a peça era uma crítica aos costumes e ao mesmo tempo um solavanco nos mentes entorpecidas. Falava de guerra, não da guerra sangrenta, mas daquela contra o status quo e a injustiça.

E o Anjo Lucas encarnava muito bem o anunciador da bem-aventurança, não só por ser parte da mesma sociedade que ali era criticada, mas por demonstrar, com a força dos pulmões, através da voz possante, um grito de revolta. A voz do anjo despertava a plateia e também aos atores, embalava a todos com o hino que entoava.

Ali já me apaixonei pelo anjo. Ali já gravei em minha mente a imagem e a alma daquele momento eterno. E de lá para cá, idos mais de quatro anos, guardei o sentimento para mim. Evitei pensar no assunto, levantar a poeira, tornar vivo algo que era sagrado. Eu não conhecia o anjo pessoalmente e, mesmo após conhecê-lo, meu respeito e veneração continuaram latente, me proibindo de desejar o que não poderia ser desejado. Não apenas por se tratar de um santo, mas por este santo já pertencer a outra pessoa.

Agora, decorrido o tempo, o mesmo tempo que também é divindade sagrada, fui aproximado do anjo, por força do destino e das circunstâncias. Ambos, eu e o anjo, vivendo situações de vida semelhantes, relativas ao amor. A identificação das histórias foi total. Daí, já desamarrado do pudor e do temor do desconhecido, passei a admirar e a amar ainda mais àquele anjo, agora visto não só mais pela beleza estética, aquela beleza que atrai os olhares das multidões, mas, principalmente, e, talvez, somente, pela beleza da pureza de sentimentos, dos propósitos e das atitudes impróprias a um homem do século XXI.

Este anjo tem apenas vinte e poucos anos de vida, mas tem uma mentalidade e uma visão de mundo de um velho sábio, daquele guru que é consultado quando se precisa de aconselhamento, de lições de quem já viveu a eternidade e experimentou os acontecimentos do mundo físico e espiritual. Aí sim, percebi que o amor que eu sentia tem muito mais força, consistência, razão de ser. Primeiro, pelos meus sonhos de amor eterno, fidelidade, respeito, camaradagem, compartilhamento de almas. Segundo, pois ele é um anjo de verdade, com o qual não apenas posso sonhar, mas ver e sentir, perceber e tocar... mesmo que em pensamento.

Valdeck Almeida de Jesus
Escritor, Poeta e Jornalista

31 de agosto de 2010

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